A balança comercial e o PIB

A balança comercial está na linha da frente do debate do crescimento económico, com as diferentes forças políticas a valorizarem a sua importância para o crescimento nacional.
Para compreender esta “relação” será realizada uma análise da balança comercial portuguesa, de e para a Zona Euro, e uma reflexão sobre os seus impactos no PIB, em cada um dos seus componentes e no conjunto, e como a mesma reage as flutuações da economia real.

A balança comercial é um indicador da economia nacional, que molda o seu tecido consoante a sua orientação, no caso de um superávido (mais exportações que importações) a economia obteve um “lucro” o que significa que existe capital disponível, para novos investimentos, em caso negativo, verifica-se o oposto, e o mesmo deve ser coberto pelas reservas financeiras, de modo que a prioridade seja aumentar as exportações e diminuir as importações, sendo que (neste caso para a Europa) aumentar as exportações depende também da disponibilidade e capacidade económica do resto da Zona Euro.

É o chamado “efeito de repercussão”, quando uma economia, está em expansão tendem a existir mais compras, e mais vendas do lado exterior. O efeito de uma balança comercial de superávido é positivo por conta dos recursos que levam à mesma, se um país exporta mais, significa que teve de investir e alocar recursos ao mesmo, esse investimento, directa (emprego) ou indirectamente através de compra de material, (entre outros) influencia positivamente o tecido económico. Portanto quando um país exporta, e tem uma balança comercial de superávido, movimenta a economia e afecta positivamente o PIB.

Nos últimos anos Portugal tem registado saldo positivo na sua balança. Apesar da crise, a Europa compra mais do que vende a Portugal, o que obviamente beneficia o PIB nacional pois, a nível do consumo privado, não existe uma relação directa entre um superávido e um aumento do consumo interno, neste caso, é exactamente o contrário, o consumo privado é como se fosse uma injecção de capital na economia, o que ajuda a mesma a investir, e a conseguir os meios para exportar. No caso do consumo público, o impacto é semelhante ao do privado, se a balança comercial for deficitária não tem um impacto directo no consumo público, o que acontece é que o Estado pode redireccionar o seu investimento de modo a influenciar o tecido empresarial, e de o ajudar a exportar mais. Quanto ao investimento, a relação já é mais complexa devido ao efeito de “alavanca”. Para exportar é necessário investimento, uma balança com superávido (tem um efeito de alavanca sobre o investimento) vai puxar pelo mesmo, fazendo com que os empresários continuem a correr o risco, quanto à exportação/importação, são dois componentes da balança mas que também fazem parte do cálculo do PIB a exportação é o factor mais importante, mas mais exportações só por si não significa melhoria no PIB. Portugal não escaparia à recessão, passando de uma contracção do PIB de 3,2% para 0,2% (2015), apesar de um aumento das exportações em mais de 3% em relação ao homologo. Portugal até pode ter um superávido, mais isso pode não se refletir significativamente no PIB, pois estas valem cerca de 40%, enquanto por exemplo o consumo privado vale 65,9%, ou seja não é importante o numero ou um aumento, mas sim a sua contribuição para o total. Quanto à importação, a mesma pode ser olhada por dois lados, do lado da balança comercial, quanto menor melhor, do ponto de vista do PIB é também um sinal positivo, mas se tivermos em conta de (como disse antes) que um país em expansão tende a aumentar as suas importações, se um país tiver um nível muito baixo de importações pode ser sinal de falta de capital disponível/descida do poder de compra bem como descida dos consumos.

Os factores que mais influenciam o PIB, são o consumo e o investimento, (representou 15% PIB ano passado) sendo que estes podem anular o valor da balança comercial pelo maior peso que têm no PIB, que por exemplo em 2011 e 2012, teve valores de 4,7 e 3,9 pontos percentuais, respectivamente, mas acabaram por ser anulados pelo contributo negativo da procura interna, que registou uma descida de 6,3 e 7 pontos percentuais, respectivamente.

E não nos podemos esquecer que tudo isto está sobre o “chapéu” das medidas e estabilidade política quem têm influência directa em todos os factores apresentados. De modo geral um superávido da balança comercial é sempre positivo, mas ao contrário de alguma opinião, este não é a salvação da nossa economia, (devido ao seu peso) os grande motores, do nosso PIB são o investimento e o consumo que (no ano passado) representaram 84% do PIB, enquanto a balança comercial representou apenas 1,7%, sendo que nos dois casos da balança os bens superam claramente os serviços, as exportações não podem ser descuradas, resultam de investimento e a quedas das mesmas vela a um desacelerar do mesmo, consequentemente dos consumos e à queda do PIB de uma forma generalizada. A balança comercial tem um impacto indirecto, mais importante que o directo no PIB pois representa a penas 1,7%, mas por outro lado o seu desempenho afecta os maiores contribuidores do PIB. A balança em superávido assegura a escoação do investimento, continuação do mesmo, criação de empregos compra de material fixo, matérias-primas etc, o que gera consumos. O PIB e a balança interligam-se um afectam um outro, como “gémeos siameses” se um é deficitário, irá afectar o outro, por isso, devem ser olhados desse ponto de vista, não de forma isolada, e não como temos visto a exportação ser a salvação das terras lusas, a chave está no conjunto.

Autor: Saúl Paulo Devessone. Nascido a 29/01/1992 reside em Lisboa. Encontra-se no último ano da Licenciatura em Ciência Política no ISCTE-IUL.
E-mail:Davinson_192@hotmail.com

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