O LEGADO DA PRESIDÊNCIA DE BARACK OBAMA

“Prometo-vos que chegaremos lá”, proclamou em Chicago um ainda jovem Barack Obama na noite em que no final de 2008 se tornou o primeiro afro-americano eleito Presidente dos Estados Unidos. Perante 250 mil pessoas, unidas pela esperança e comoção, o “lá” que Obama prometia era uma América melhor e mais forte. Oito anos volvidos, é tempo de traçar balanços da sua governação. Resta, portanto, a pergunta inevitável: Que herança, afinal, deixa Barack Obama?

Quando Obama assumiu funções – em plena crise da dívida hipotecária (“crise dos subprimes”) -, os EUA encaminhavam-se para uma segunda “Grande Depressão”. Caiu-lhe nas mãos os trapos de um país cujo mercado imobiliário se encontrava em implosão e o mesmo estava para acontecer à indústria automóvel.

Perante este complicado cenário, Obama tirou proveito de um congresso de maioria democrata – o seu pacote de estímulo económico é aprovado sem um único voto republicano – e lança um gigantesco programa de investimento denominado de “American Recovery and Reinvestment Act”, no valor de 831 mil milhões de dólares em sectores vitais como bancos, transportes (permitiu a salvação da General Motors), infra-estruturas e outras áreas públicas. Esses resgates funcionaram: a General Motors e a AIG voltaram aos lucros e o Dow Jones disparou até aos 140%. A economia, apesar de titubear nos primeiros quatro anos, conseguiu aguentar-se e, mais tarde, despertou. Há ainda o reforço legislativo das regras aplicadas à indústria de Wall Street (“Dodd-Frank Wall Street Reform and Consumer Protection Act”) apesar de, em termos práticos, não ter tido grande sucesso.

Após dois mandatos de administração Obama, a análise do crescimento económico americano é clara: situa-se pelos 3%, foram criados 11 milhões de postos de trabalho, o emprego cresce há 75 meses consecutivos, o mercado imobiliário recuperou 23% nos preços, a taxa de desemprego recuou de níveis recorde na casa dos 8% para cerca de 4,6% e, em 2016, os rendimentos aumentaram para todos os segmentos de trabalhadores. Assim, Obama despede-se de Washington com o défice reduzido para menos de um terço do que recebeu, nos 2,8% do PIB. Contudo, o rácio da população activa é dos mais baixos em décadas, o poder de compra não aumentou e muitos dos empregos criados são mal pagos, o que fez aumentar o fosso que separa os 1% muito ricos dos restantes 99%.

A par da economia, Obama avança rapidamente para a sua principal iniciativa no plano interno, uma reforma do sistema de saúde americano conhecida como “Obamacare” (“Patient Protection and Affordable Care Act”). Tal garantiu o acesso a seguros de saúde a 20 milhões de americanos num país onde cerca de metade da população não tem acesso fácil a um sistema de saúde, quase generalizadamente custeado e controlado por seguradoras privadas. Não é o modelo de sistema público de segurança social que existe nas outras economias avançadas e que Obama desejou, mas alterou profundamente a forma como a saúde é encarada nos Estados Unidos. As seguradoras já não podem recusar cobertura com base em doenças passadas; começaram a existir planos de saúde subsidiados. Todavia, pelo meio, o processo estagnou, tornou-se burocrático e complexo. O resultado do programa está longe do idealizado inicialmente mas, ainda assim, a situação hoje é bem melhor para os mais desprotegidos.

Obama inaugurou, também, uma nova era nos EUA em relação às alterações climáticas. A “revolução de energia limpa” (“American Clean Energy and Security Act”) permitiu elaborar padrões federais para eliminar as fontes mais poluidoras, como as centrais térmicas mais antigas e modernizar a produção eléctrica, sob o controlo da EPA (“Environmental Protection Agency”), a quem foram atribuídos extensos poderes.

No aspecto social, a promoção dos direitos de identidade dos GLT (gays, lésbicas e transexuais) permitiu melhorar substancialmente as suas vidas. No que toca a políticas de igualdade, a administração Obama aprovou, também, legislação para fomentar a equidade de salários entre homens e mulheres com funções equivalentes.
Olhando para o plano internacional, a avaliação feita à acção presidencial de Barack Obama é globalmente favorável – embora nada consensual – num mundo em que a América já não é uma superpotência hegemónica e o mundo se norteia por um novo policentrismo.

Em 2011, ocorreu aquele que terá sido o momento de glória da sua presidência: a morte de Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda e cabecilha dos atentados do 11 de Setembro de 2001. Uma vitória para o presidente, para as tropas americanas e as chefias militares. Mas, este acontecimento fortemente simbólico não contribuiu em nada para diminuir a instabilidade e o terrorismo. Adicionalmente, conseguiu um importante acordo nuclear com o Irão e reatou as relações diplomáticas com Cuba. Mas, contra o que prometera, não fechou a base de Guantánamo, em Cuba. Paralelamente, as relações com a Rússia começaram bem, mas os ‘dossiers’ Crimeia e Síria azedaram o tom e terminaram num ponto baixo, com expulsões de diplomatas russos.

Ainda no espectro internacional, de realçar igualmente a retirada das tropas americanas do Iraque – em 2011 e o início da retirada do Afeganistão, em 2013. Porém deixou com isso um vazio no Médio Oriente que permitiu florescimento do ISIS/DAESH. Porém, a acção americana na Síria foi, de facto, o maior fracasso. A Síria é, desde 2011, um barril de pólvora. Apoiados na política não intervencionista perpetrada por Obama, os Estados Unidos reagiram tardia e ambiguamente, em doses demasiado pequenas. Esta hesitação levou a Rússia a assumir o protagonismo no terreno de guerra ao lado de Bashar al-Assad. Por sua vez, Obama prometeu bombardear o regime sírio caso este usasse armas químicas contra a sua própria população e quando isso aconteceu o presidente americano contentou-se com a eliminação do arsenal químico de Assad. Com isso Washington perdeu credibilidade interna e externamente. Hoje, o ditador sírio está por cima no conflito e parece seguro no seu lugar ao invés que o poder americano está enfraquecido.

À imagem de qualquer estadista, o legado de Obama não é isento de erros nem imune a críticas. Desde logo porque a sua retórica messiânica criou expectativas demasiado elevadas. Evidentemente, seria impossível que todas elas se concretizassem. Dir-se-á que onde as esperanças mais se concentravam foi onde ele menos brilhou. Um dos exemplos notórios da desilusão instalada é a sonhada e prometida “América pós-racial”. Ao contrário do esperado, a violência e tensões raciais não diminuíram, antes pelo contrário. A reforçar esta ideia está o aparecimento do movimento “Black Lives Matter” e os confrontos entre comunidades negras e forças policiais que mancharam o segundo mandato. A questão racial permanece uma “força potente e muitas vezes divisiva”.

Além deste fracasso assumido pelo próprio, Obama não escondeu o desalento pela incapacidade demonstrada em contrariar o lobby pro-gun e de aprovar legislação mais restritiva sobre o uso e porte de armas. O tiroteio de Sandy Hook, em 2012, é para Obama o momento mais negativo dos oito anos de presidência.

Quando Obama tomou posse como 44.º Presidente dos Estados Unidos, reinava a esperança numa América e num mundo melhores. Agora que toma posse Donald Trump, é o medo do abismo e a incerteza que imperam. Obama sai de cena com nota alta, como revela a sondagem do Washington Post e da ABC que o incluem num restrito lote de Presidentes entre Roosevelt, Reagan e Bill Clinton que cessam funções com 60% ou mais de aprovação. E como um político inspirador e bem-intencionado que tentou derrubar muros tais como as tensões raciais, desigualdade, preconceitos, mas que, porém, se deparou com uma oposição acicatada por parte dos Republicanos. Boa parte deste legado está agora ameaçado pela chegada de Trump ao poder. Se este for um fracasso, Obama pode ficar na história como o Presidente que se afastou dos eleitores e abriu caminho ao populismo. Caso Trump consiga ter êxito, e se as políticas de Obama forem definitivamente enterradas, terá sido apenas o primeiro Presidente negro da história dos EUA. Pouco, muito pouco aliás.

Em suma, apesar do indiscutível sucesso de Obama no combate à maior crise económico-financeira desde os anos 30 do século passado, objectivamente foi no seu mandato que se desenvolveram condições económico-sociais que permitiram que um Trump fosse eleito. Deixou para o seu sucessor as pontas soltas das suas reformas e não investiu numa plataforma política democrata que assegure a sobrevivência do seu legado. Obama arrisca-se, então, a que essa seja a principal mancha e o fim do seu legado.

Autor: André Ratinho Pereira. Natural de Lisboa, onde reside, nasceu a 16/07/1993. É licenciado em Ciência Política pelo ISCTE-IUL. É mestre em Economia Monetária e Financeira no ISCTE Business School.
E-mail: andreratinhopereira@gmail.com

O QUE ESPERAR DOS PRIMEIROS DIAS DA PRESIDÊNCIA DE TRUMP NOS EUA?

A vitória de Donald Trump é uma revolução de que ainda está para se perceber o futuro.
Contudo, ao longo da campanha eleitoral, foi possível descortinar algumas das medidas que Trump pretende incrementar e este artigo visa precisamente elucidar de um modo mais claro as principais, subdivididas em diversas áreas, que vão desde a política externa, às relações comerciais, à política social, económica, e por fim, à ambiental.

A meu ver, em relação à política externa, Trump irá repensar as garantias de protecção aos aliados da NATO, tendo já afirmado que os EUA já cumpriram todas as “obrigações” para com a aliança militar. Como tal, ameaçou retirar todas as tropas americanas estacionadas na Europa e Ásia, isto se os seus aliados não contribuírem com um maior peso dos seus orçamentos na já referida organização militar. O possível isolacionismo americano só poderá ser terrífico para a Europa, muito dependente da guarda-chuva militar dos EUA. Por outro lado, Trump gerou controvérsia ao declarar que o povo da Crimeia – que Moscovo anexou em março de 2014, na sequência da queda do Presidente ucraniano pró-russo, Víktor Yanukóvytch – deseja ser governado pela Rússia e que, se fosse eleito, ia analisar a possibilidade de reconhecer legalmente a anexação da península. A NATO teme, portanto, que Trump transforme o que poderá ter sido mera retórica de campanha numa política da sua administração, num grande acordo com Putin, cedendo a Crimeia e o leste da Ucrânia, em guerra há quase 3 anos, em troca de não-interferência da Rússia nos estados bálticos. Tal acordo seria visto, por Moscovo, como um álibi político para alargar a sua esfera de influência no leste europeu e daria a impressão errada de que, se aguardar tempo suficiente, a NATO, a UE e os americanos vão enfim ceder.

Quanto ao comércio externo, pretende renegociar o North American Free Trade Agreement (NAFTA) e abandonar o Trans-Pacific Partnership (TPP) – acordo de livre comércio estabelecido por doze países banhados pelo Oceano Pacífico e que implicaria a diminuição de tarifas e a unificação das regras de copyright. O acordo é semelhante ao Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP), mas este aplicado à UE. Assim, antecipa-se que vá quebrar o compromisso dos Republicanos com o comércio livre e apostar numa série de políticas proteccionistas para fechar as fronteiras económicas do país.

Debruçando-me neste momento para a política social, Trump quer assinar a maior “revolução tributária” desde a administração Reagan e, assim, aprovar uma descida de impostos pagos pelos trabalhadores e PME’s através de uma simplificação gradual do sistema de impostos. O Patient Protection and Affordable Care Act (PPACA), comummente conhecido por Obamacare, deverá ser substituído por outro sistema de comparticipações intitulado de “Contas de Poupança de Saúde”, onde serão os estados, e não o governo federal, a decidir como gerir os fundos do sector da saúde.

Uma outra grande questão prende-se com o Supremo Tribunal norte-americano. Neste ponto, Trump vai, provavelmente, poder nomear um juiz conservador para ocupar o lugar deixado vago a meio da campanha eleitoral pela súbita morte de Antonin Scalia. Tal tomada de decisão poderá traduzir-se na reversão de históricas conquistas, como a garantia do direito das mulheres a interromperem gravidezes indesejadas e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, legalizado a nível federal em junho de 2015. Com a idade já avançada de alguns dos juízes do Supremo, caso da liberal Ruth Bader Ginsburg, a médio prazo poderá conseguir o domínio conservador da mais alta instância judicial.

É um exercício impossível prever a política económica que ele poderá seguir. Trump não só nunca formou uma equipa séria de conselheiros económicos com ideias formadas e publicadas, como raras vezes afirmou algo de palpável. Em termos fiscais, o recém-eleito presidente norte-americano, viveu toda a sua vida com base em crédito. Todo o seu império imobiliário foi construído com base em dinheiro emprestado e sempre o fez até ao limite, sem receio de abrir falência tendo acontecido, até, com algumas das suas empresas. Juntando-se isto à natureza populista, prevejo uma aposta clara nas infra-estruturas internas como meio de impulsionar a economia e o emprego – o único momento de claridade no seu paupérrimo discurso de celebração de vitória. Tal constituirá um tiro certeiro na política económica de austeridade europeia e será feita a contraciclo do que a Europa, liderada pela Alemanha, tem vindo a pregar activamente nos últimos anos, com a sua política de austeridade pura e dura. Trump percebeu que o mal-estar da força de trabalho americano não só era um trunfo eleitoral, como também algo que o país não pode perder e, por isso, virar-se-á, sobretudo, para o interior dos EUA. Fomentar emprego depressa, a relembrar o New Deal de Roosevelt, é uma prioridade política. Consequentemente, o défice público irá disparar e daqui a quatro, ou oito anos, Trump deixará a White House com uma enorme dívida por saldar.

No que diz respeito à política ambiental, o voto recaiu sobre o candidato que se prepara para colocar, em lugares de decisão, um conjunto de indivíduos que recusam o paradigma das alterações climáticas, amplamente confirmado nos dados recolhidos durante as últimas décadas. A questão central relaciona-se com a tese negacionista do futuro presidente americano somada ao conluio da futura administração com a classe empresarial, em geral, e a indústria dos combustíveis fósseis, em particular. Deverá, portanto, cancelar os milhares de milhões de dólares investidos em programas da ONU de combate às alterações climáticas, assim como acabar com as restrições ao fracking, que permite a extracção de petróleo, carvão e gás de xisto em território americano. Numa outra perspectiva, como se não bastasse ver Trump a exercer o seu poder nas três frentes: Supremo, Senado e Congresso, não escondeu a sua intenção de nesta fase de transição colocar os assuntos da EPA (Environmental Protection Agency) nas mãos de Myron Ebell, um assumido negacionista das alterações climáticas. Tal se afigura um notório recuo face às negociações internacionais consubstanciadas no Acordo de Paris para o clima, aprovado por 195 países que se comprometeram a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, numa derradeira tentativa para travar o aumento de temperatura média global.

O candidato anti-establishment quer mudar o país, a começar, desde logo, em Washington, com medidas restritas que penalizem práticas associadas ao lobbying. Assim, este promete lutar contra a burocracia, aprovar uma emenda constitucional que imponha limites aos mandatos de todos os membros do Congresso e adoptar uma nova “ética” na política, de modo a interditar o acesso ao sector privado durante 5 anos por parte de qualquer político com poderes executivos e prometeu, ainda, congelar as contratações de funcionários federais para reduzir o tamanho do Governo.
Em suma, Trump abriu as portas a um novo paradigma, sinal do fim de um ciclo político e económico e, certamente, estes serão tempos de transição e incerteza que não nos esclarecem, concretamente, sobre qual a rota que seguirá o planeta.

Não resta outra solução que não esperar, isto para mal de quem tem tido a presença constante dos EUA, como pacificador (ou fomentador) de conflitos internacionais.

Autor: André Ratinho Pereira. Natural de Lisboa, onde reside, nasceu a 16/07/1993. É licenciado em Ciência Política pelo ISCTE-IUL. É mestre em Economia Monetária e Financeira no ISCTE Business School.
E-mail: andreratinhopereira@gmail.com

DONALD TRUMP, O ABOMINÁVEL CISNE NEGRO

O cisne negro, o altamente improvável Donald Trump ganhou as eleições americanas e tornou-se no 45º Presidente dos EUA, cargo que ocupará a partir do dia 20 de Janeiro de 2017. Era completamente inverosímil que Trump pudesse derrotar os pré-candidatos republicanos e muito menos depois arrasar Hillary Clinton mas o cisne negro conseguiu surpreender tudo e todos.

Trump conquistou a Casa Branca com um discurso anti-imigração, prometendo construir um “grande e belo muro” na fronteira com o México. A sua maior promessa é encerrar os EUA na sua concha de raiz isolacionista e voltar a um passado idílico: Make America Great Again. Evidentemente nada disto é particularmente original se comparado com o discurso dos novos partidos de extrema-direita europeus enraizados num nacionalismo cego e profundamente eurocépticos, como a National Front de Marine Le Pen ou o Alternative für Deutschland de Frauke Petry. Esses e outros líderes de partidos populistas europeus com ideologia semelhantes saudaram entusiasticamente a vitória de Trump, encarado como a vanguarda de um movimento internacional de libertação dos povos, quebrando, desta maneira, o momentum de Clinton.

A campanha eleitoral foi marcada por ataques sucessivos e golpes abaixo de cintura parte a parte mas Trump soube trabalhar o carisma de herói improvável, campeão do povo impotente contra os vícios de um sistema puramente tentacular, que tratou de personificar na sua adversária. Trump impôs-se nos estados decisivos nas eleições americanas, em particular em estados da cintura industrial do Midwest, considerados seguros para os democratas, como Michigan, Pensilvânia, Ohio e Wisconsin, que já em 1984 tinham votado em Ronald Reagan – os chamados Reagan Democrats doravante designados também por Trump Democrats. A abrangência e diversidade da população que elegeu Trump parecem exprimir sinais importantes sobre a evolução política do eleitorado americano assente no cada vez maior afastamento do establishment americano.

Mas vamos por partes: o que aconteceu ao certo para Trump ter vencido estas eleições, à partida irreversivelmente perdidas? Importa analisar, em primeiro lugar, os 2 mandatos de Barack Obama. Ao fim de 8 anos de um Presidente afro-americano, temos uma América com problemas sociais agravados e uma Europa a viver um momento de fragmentação em parte devido ao fluxo de refugiados causados por um imbróglio no Médio Oriente no qual Obama tem graves responsabilidades indirectas. A sua oratória de pregador da igreja evangelista é de facto impressionante e ao mesmo tempo cativante. É um homem genial mas não foi um presidente genial. Prometeu uma mudança que não conseguiu impor. Num outro ponto de vista, Trump não está totalmente errado em tudo o que diz quando acusa a administração democrata de ter “criado” o Daesh. De facto, a saída do Iraque, tal como processada – com data anunciada publicamente, originou uma sensação de falsa calma e permitiu nomeadamente que o governo xiita de Bagdad preparasse uma autêntica purga aos sunitas que acabaria por se repercutir na Europa. O fluxo de refugiados que continuamente desembarcam nas costas do Mediterrâneo teve influência nos resultados do Brexit, alimentando uma bola de neve imparável e cada vez maior de nacionalismos egoístas e europeus anti-europeístas.

Com Clinton no poder, tudo se manteria na mesma. Convenhamos, Clinton não é nem nunca foi santa, era aliás padroeira de um sistema corrompido de que sempre pertenceu e que com ela prevaleceria. Deste modo, Trump sempre foi visto como um outsider num genuíno show eleitoral projectado a priori para transformar Clinton na primeira mulher Presidente dos EUA. Aquilo a que assistimos não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária dos media sem precedentes que fizeram o endorsement a Clinton onde até revistas apolíticas como a Variety participaram e onde assistimos a um conluio a Trump nas mais variadas personalidades da alta cúpula do Grand Old Party. Trump foi alvo da maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vez presenciei na minha vida. A eleição deste foi tão-somente o triunfo da democracia e uma derrota inequívoca dos meios de comunicação social. A vitória de

Trump é uma revolução de que ainda está para se perceber o futuro e o seu discurso, ainda que por vezes seja rude, desarticulado e populista, foi sendo interpretado como uma manifestação de audácia e independência, face a uma cultura dominada pelo tabu do politicamente correcto.

Creio que os próximos tempos serão marcados por uma imprevisibilidade latente embora ache que a maioria dos cenários catastróficos e opiniões apocalípticas niilistas que já tive oportunidade de ler na imprensa pública e estrangeira são algo exacerbados. A meu ver, Trump acabará por se tornar lenta mas gradualmente num republicano moderado e liberal, numa espécie de antítese do que foi ao longo de toda a campanha.

A Europa reagiu com desconcerto à eleição de Trump mas talvez seja este o momento que a Europa tanto ansiava. Perante a cada vez mais evidente bicefalia de equilíbrio de poderes no Mundo, entre 2 blocos coesos e ameaçadores, como os EUA de Trump e Federação Russa de Putin, esta parece-me ser a oportunidade de a Europa voltar a ganhar o seu próprio protagonismo político como outrora o teve. Parece-me evidente, portanto, que perante um presidente norte-americano anti-sistema e anti-globalização e um czar russo ávido em ideias expansionistas em termos territoriais, só resta à Europa unir-se e assim salvar-se.

Autor: André Ratinho Pereira. Natural de Lisboa, onde reside, nasceu a 16/07/1993. É licenciado em Ciência Política pelo ISCTE-IUL. É mestre em Economia Monetária e Financeira no ISCTE Business School.
E-mail: andreratinhopereira@gmail.com

Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento (TTIP)

O que esperar do Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento (TTIP)?

A relação entre os Estados Unidos da América e a União Europeia foi pautada pelas boas relações e pela cooperação americana no projecto inicial europeu, num cenário de devastação pós-Segunda Guerra Mundial. Juntas são duas das maiores superpotências produtivas do globo, com volumes de comércio e capitais tão relevantes que se equivalem em escala a organizações continentais como o MERCOSUL (América do Sul) ou a ASEAN (Ásia). É num contexto de 43% da produção mundial, 1/3 do comércio mundial e com um PIB anual de cerca de 750 biliões de euros (dados de 2014) que se vislumbra um acordo de associação iniciado em 2013. O TTIP (Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento), já nas suas etapas finais, permitirá constituir a maior zona de livre comércio de sempre, quando finalizado. As negociações, não obstante envoltas num secretismo inicial e com pouca abertura por parte dos órgãos comunitários, possuem agora um complexo conjunto de 24 capítulos agrupados em 3 partes que se focam essencialmente numa maior liberalização do mercado e respectivas trocas comerciais, implementadas na adopção de novas regras e legislações (levantamento de barreiras alfandegárias), mas em que a grande maioria dos detalhes ainda não são conhecidos. Será este um desafio ou uma oportunidade para Portugal e para a União Europeia?

Perspectivas:
No que concerne às perspectivas para a economia e geopolítica internacional, este negócio poderá enfraquecer a pujança da China como mercado emergente, apesar de este continuar a ser preferencial pelas baixas taxas de produção, as mais competitivas do mundo. Ainda assim, o acesso a novos produtos, tanto da Europa, como dos EUA, diminuirá essa «sino-dependência». Olhando para o já existente acordo entre União Europeia e Canadá (CETA), com este tratado com os EUA a relação UE – América do Norte completa-se e vislumbra-se que também contribua para a crescente tendência de liberalização do comércio à escala global.

Ao nível comunitário destaca-se que o TTIP contribuirá para o acesso facilitado da UE a produtos energéticos (EUA é uma incontornável potência energética), não esquecendo que esta tem sido uma área fragilizada nos últimos anos com a contenção das relações com a Rússia. No total, perspectivam-se com o tratado ganhos de mais de 100 mil milhões de euros por ano para a UE.

Num contexto interno em que as exportações são um dos motores-pivô da economia portuguesa, o acordo de parceria transatlântica de comércio e investimento entre os EUA e a UE poderá ajudar ainda mais as empresas portuguesas na sua internacionalização e em aumentos dos níveis de exportação, o que resultará num alavancamento da economia e da produção interna. O consumidor poderá, à partida, esperar o acesso a uma maior competitividade de preços e variedade de escolha de produtos. Porém, sendo grande parte dos produtos portugueses provenientes da agro-pecuária (viticultura, cultura de tomate, carnes, leites e derivados, azeite, entre muitos outros) adivinha-se que Portugal poderá, igualmente, sofrer um forte revés pela entrada de produtos norte-americanos sem barreiras alfandegárias e mais baratos, a concorrer de forma directa com os produtos nacionais. A suceder-se, este cenário dificultaria ainda mais vários dos sectores da produção interna já fragilizados pelos problemas económico-financeiros que têm assolado o país nos últimos anos.

Marcado pela crítica:
O TTIP tem sido veementemente criticado desde os tempos primordiais em ambos os lados do Atlântico. Em solo europeu, vários milhões de pessoas demonstraram o seu descontentamento assinando petições e integrando protestos. A mais relevante é a plataforma online “Stop TTIP”, cuja petição conta com a assinatura de mais de 3 milhões de europeus. Receiam a entrada de produtos agrícolas geneticamente modificados cancerígenos (OGM), os prejuízos que as indústrias agropecuárias europeias poderão vir a ter, o aumento do desemprego como resultado final e a monopolização dos mercados da produção agro-pecuária e outros pelas grandes multinacionais, factos esses que, quando conjugados, prevêem cada vez menos espaço para o comércio local.

Apesar de ser precipitado fazer balanços sobre um projecto que, todavia, está na mesa de negociações, e cujos detalhes ainda não são totalmente conhecidos, pode-se estar a falar de um negócio interessante para todos os intervenientes com potencial para ser um grande contributo à consolidação do processo de integração económica europeia da Zona Euro e do Mercado Comum, se as expectativas positivas forem bem sucedidas.

Autor: André Simões dos Santos. Residente e nascido em Coimbra a 05/02/1994 é finalista da Licenciatura em Estudos Europeus pela Universidade de Coimbra bem como sócio colaborador do Departamento de Pesquisa e Investigação da Associação Portuguesa de Estudos Europeus. A sua mobilidade ao abrigo do programa da Comissão Europeia ERASMUS + foi em Janeiro de 2016 alvo de reportagem no programa “Os Europeus”, SIC Notícias.
E-mail: simoesdossantosuc@gmail.com
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